Um achado numa loja de artigos em segunda mão voltou a acender a nostalgia na comunidade de hardware do Reddit. Trata-se de uma Abit BP6 em estado quase impecável, componente lançado em 1999 que marcou uma era ao contornar, com engenharia engenhosa, as restrições impostas pelos fabricantes de semicondutores.
No final da década de 1990, a Intel mantinha uma estratégia rígida de segmentação de mercado. Quem procurava um sistema multiprocessado era obrigado a investir em chips Xeon ou Pentium III para servidores, plataformas que custavam uma pequena fortuna. Para o mercado de consumo geral, a empresa disponibilizava a linha económica Celeron, que trazia o mesmo núcleo Mendocino dos Pentium II contemporâneos, mas vinha bloqueada de fábrica para funcionar apenas em sistemas de socket único.
A Abit recusou aceitar este limite comercial. Cruzando o chipset Intel 440BX com dois sockets Socket 370 na mesma placa, os engenheiros da marca conseguiram implementar o processamento simétrico (SMP) em chips Celeron. A solução permitia que dois processadores de baixo custo trabalhassem em paralelo, entregando o desempenho de uma workstation profissional por um terço do preço habitual.
A novidade surgiu no auge do overclocking. Modelos lendários como o Celeron 300A ganharam fama por ultrapassar os 450 MHz através de um simples ajuste no barramento frontal de 66 para 100 MHz. Graças à tecnologia SoftMenu da Abit, que permitia alterar tensões e frequências diretamente na BIOS sem recorrer aos clássicos jumpers, a BP6 tornou-se o objeto de desejo de qualquer entusiasta.
Esta configuração exigia, contudo, o ecossistema correto. Apenas sistemas operativos avançados para a época, como o Windows NT, o Windows 2000 e algumas distribuições Linux, sabiam extrair rendimento de duas CPUs em simultâneo. Além disso, nem todas as revisões do silício da Intel aceitavam o modo duplo sem intervenção física nos contactos.
Mais do que um produto bem-sucedido, a Abit BP6 provou que muitas das limitações técnicas impostas ao hardware de entrada dependem apenas de decisões de marketing, um debate que continua perfeitamente atual no mercado de tecnologia.




















