O termo sharenting descreve a prática comum de muitos pais partilharem fotos e vídeos dos filhos nas redes sociais. Embora esta partilha seja, na maioria das vezes, feita com boas intenções — como registar momentos especiais ou manter familiares atualizados —, a verdade é que pode expor as crianças a riscos significativos de privacidade e segurança.
O que é o sharenting e porque deve preocupar-se
Nos últimos anos, vários especialistas em cibersegurança têm alertado para os perigos de publicar imagens de menores online. As consequências vão desde a utilização indevida das fotos por pedófilos, à sua comercialização em fóruns clandestinos, até à exploração destas imagens em conteúdos manipulados com inteligência artificial (IA).
Um exemplo preocupante são os chamados nudifiers (programas que usam IA para criar falsos nus), que podem transformar imagens aparentemente inofensivas em conteúdo abusivo. Isto mostra que até publicações feitas de forma inocente podem ser reutilizadas de maneira perigosa.
O uso de emojis não é uma solução eficaz
Perante estes riscos, muitas famílias adotaram alternativas: algumas optam por não publicar imagens, enquanto outras continuam a partilhar, mas cobrem o rosto das crianças com emojis ou outros filtros.
À primeira vista, esta parece ser uma solução prática. Contudo, não é tão segura quanto se imagina. Ferramentas de IA são cada vez mais capazes de remover adesivos digitais e reconstruir rostos escondidos, o que abre portas para práticas como o cyberbullying, chantagem digital ou criação de deepfakes.
Riscos adicionais, mesmo com emojis
Mesmo que o emoji ou filtro não possa ser removido, ainda existem formas de os criminosos explorarem as publicações. Detalhes aparentemente inocentes podem fornecer informação valiosa:
- O logótipo da escola visível no uniforme;
- A localização anexada à publicação;
- Padrões de horários e locais recorrentes nas fotos e vídeos.
Segundo Lisa Ventura, fundadora da Cyber Security Unity, quando os pais partilham imagens de forma consistente, “os dados combinados ao longo do tempo criam uma preocupação de privacidade muito maior do que qualquer imagem isolada”. Ou seja, cada fotografia contribui para construir um perfil detalhado da criança, incluindo idade, localização, rotina e características físicas.
Como reduzir os riscos do sharenting
Eliminar por completo os riscos só é possível evitando a publicação de fotos de menores. No entanto, para quem decide continuar a partilhar, existem boas práticas que ajudam a minimizar os perigos. Especialistas da Kaspersky recomendam:
- Ajustar as definições de privacidade das redes sociais, limitando o acesso apenas a amigos próximos e desativando o partilhar/repartilhar;
- Conversar com familiares e amigos para definir limites sobre interações e republicações de fotos das crianças;
- Remover metadados e geolocalização das imagens, reduzindo a possibilidade de rastreamento;
- Evitar divulgar dados identificáveis, como nome da escola, datas de aniversário ou locais frequentemente visitados;
- Não usar os nomes reais das crianças nas legendas, optando antes por apelidos ou descrições neutras.
Alternativas seguras ao sharenting
Se o objetivo é guardar memórias e partilhá-las de forma responsável, existem opções mais seguras do que publicar em redes sociais abertas:
- Álbuns digitais privados: utilizar serviços como Google Fotos, iCloud ou OneDrive para criar pastas partilhadas apenas com familiares e amigos de confiança.
- Aplicações dedicadas à partilha familiar: apps como FamilyAlbum, Tinybeans ou grupos privados no WhatsApp/Telegram permitem partilhar momentos sem exposição pública.
- Perfis fechados e controlados: criar uma conta privada exclusivamente para familiares próximos, garantindo que só pessoas autorizadas têm acesso.
- Armazenamento offline: guardar fotos em discos externos ou NAS (armazenamento em rede) para maior controlo e longe de plataformas públicas.
- Formatos tradicionais: imprimir fotografias e criar álbuns físicos, que podem ser partilhados em momentos de convívio familiar.
A partilha de momentos familiares é compreensível, mas no mundo digital cada detalhe pode ser explorado de forma maliciosa. A melhor forma de proteger os mais novos é manter o controlo sobre o que se publica e adotar ferramentas seguras que respeitem a sua privacidade.




















